2008/04/15

Quadro


Navegador de sonhos? Perguntou ele. Piloto de emoções. Disse ela...

Era assim que os dois costumavam passar as tardes. Num questionário constante intervalado por pequenos mas saborosos ósculos. Ele nunca gostou muito que entrassem no seu mundo secreto. Ela fazia da vida dela um livro aberto onde toda a gente podia escrever. Ele nunca perguntava nada, e ela não parava de lhe responder a questões ausentes. Se tivesse de os catalogar em forma de cor ele representaria o preto enquanto ela seria a personificação do mais imaculado branco. Juntos são capazes de formar qualquer cor pintando o mais belo dos quadros. A simetria no olhar decidido dos dois formam uma autêntica obra de Escher. O calor no peito que se funde constantemente no pánico invisível da alma acaba por retratar toda a emoção e dor presentes em Guernica. O sorriso dela oculta um certo receio do que o futuro possa trazer mas a espectativa e vontade em repetir indefinidamente os momentos que acaba por passar faz com que viaje constantemente no tempo com harmoniosos mergulhos de sereia no oceano dos sonhos. Ela tem mãos quentes, que respiram emoção e uma terna energia. Ele tem um ár sério mas de reservado olhar dócil, uma expressão simpática e palerma que desvia constantemente os expressivos olhos que ela ostenta. Se as rugas formadas pelo sorriso fossem capazes de falar seriamos certamente presenteados com uma das maiores declarações de carinho de sempre. Não falam, limitam-se a aquecer a alma esfriada pelo vento cinzento e áspero presente na monotonia da vida. Os cabelos dela parecem um campo de milho em tempo de apanha, a cor amarela saudavel refracta pequenos pedaços de luz que lhe aclaram o rosto evidenciando o sorriso branco e rasgado. Ela fixa o rosa da boca, ele admira o encarnado das duas enchidas maçãs do rosto que lhe conferem uma apalhaçada, mas simpática imagem. Ela gosta de se fazer idiota, ele antecipa todas as suas jogadas reagindo sempre da mesma maneira, com um semicerrar de olhos e um respirar fundo, mais uma tentativa de parar o tempo, imortalizando o momento num infinito fechar de olhos. O corpo dela parece ser uma extensão do dele. Quando abraçados, fica dificil saber onde começa um e termina o outro, dá a sensação de que mãos, pés, braços foram pintados na mesma tela, com o mesmo pincel, num mesmo e ininterrupto movimento. Se me perguntassem o de onde vieram ou para onde vão, não vos saberia dizer. Se me perguntarem o que são e onde estão, então a resposta é fácil.

São um quadro de Monet erguido na sala Felicidade.

2 comentários:

Catsone disse...

estes dois dos teus contos vão ter um final feliz?

Balhau disse...

Eu sei lá! Nem sei se vão ter final! Não achas que estás a exigir mt de mim?
Hehehhe!
:D