2010/01/15

Calor na Noite

...os beijos que ele lhe dava,

Trazia-os ele de longe

Trazia-os ele do mar,

Eram bravios e salgados...


...sempre gostei da sonoridade de Vilarette, uma espécie de fado falado. Às vezes também a gente geme dolente a soluçar. A guitarra afaga numa mágica nostalgia a fogosidade da noite. A pintura romântica da penumbra. Lume e cinza na viela, o lume no peito dela a cinza no olhar dele. Febris é como se descrevem as noites de Agosto. Eu discordo. A força pungente do luar vê-se no ardor presente no horizonte, na complexidade do adormecer, no beijo escondido ao acordar.. no acordar de Janeiro. A alma aquece, contrapondo o frio que nos gela o corpo. A névoa nocturna e fugidia acende o meu coração, no fogo da tua chama. Vais voando libertina no mundo das emoções, esquecendo, em breves pausas, dolorosas tentações. As noites aquecidas pela ternura do passado trazem sempre vontade. Vem matar a saudade, desta saudade em que fico. O silêncio da noite ensurdece a vontade de te ter, ecoam gritos de desejo. Há gente na varanda do subconsciente a exigir a tua presença. A noite tem a capacidade fantástica de mutação, tudo muda constantemente de lugar, tu permaneces como se fosses uma inquietante invariável. Mãos pungentes, mãos fermentes, impacientes, mãos desoladas e sombrias, é com elas que toco teu rosto pintado em transparentes imagens geradas aleatoriamente no tecto da minha noite. O teu sorriso acaba por me orientar na solidão. E mesmo que esteja frio, que os barcos fiquem no rio, parados sem navegar vens até mim nesse brio que enaltece o teu olhar. O dia vem rápido aos solavancos, raiando de novo o dia, devolvendo uma triste lucidez sob a forma de acordar. Fica no entanto o sonho e a vontade de te ter, vem sempre à mesma hora, mal acabo de deitar...